PSICOLOGIA HUMANISTA (PARTE III): A CONSCIÊNCIA E O EU
PSICOLOGIA HUMANISTA (PARTE III): A CONSCIÊNCIA E O EU
Última atualização (Ter, 30 de Novembro de 1999 00:00) Escrito por Humanistas Dom, 05 de Julho de 2009 23:46
(Em base ao livro Apontamentos de Psicologia.)
Entendemos à consciência como o sistema de coordenação e registro que efetua o psiquismo humano. Às vezes falamos de "consciência", às vezes de "coordenador" e às vezes de "registrador". O que acontece é que embora se tratando da mesma entidade, ela está cumprindo com funções diferentes, mas não se trata de entidades diferentes. Muito diferente é isto ao que chamamos ‘eu’. A esse ‘eu’ não o identificamos com consciência. Consideremos aos níveis de consciência como diferentes âmbitos de trabalho da consciência e identifiquemos ao eu com aquilo que observa os processos psíquicos, não necessariamente vigílicos, que se vão desenvolvendo. Em vigília vou registrando e vou fazendo numerosas operações. Se alguém me pergunta "quem é o senhor?", vou dizer: eu e vou acrescentar a isso um documento de identidade, um número, um nome, ou coisas pelo estilo. E me dá a impressão que esse eu registrará desde dentro as mesmas operações, observará as operações da consciência. Por ora já temos uma distinção entre as operações que efetua a consciência e este observador que se refere a essas operações da consciência. E se me fixo como vou observando as coisas, vejo que vou observando as coisas "desde dentro". E se observo meus próprios mecanismos, vejo que meus mecanismos estão vistos "desde fora". Se agora desce o nível de consciência e vou ao sono, como me vejo eu?. Eu vou caminhando pela rua, em um sonho; eu vejo carros que passam, gente que passa... Desde onde vejo à gente que passa, os carros que passam? Desde dentro de mim? (como agora que vejo vocês e sei que estão fora de mim, e portanto os vejo desde dentro de mim), assim me vejo eu?. Não, eu me vejo desde fora. Se observar como vejo desde o nível de sono, me vejo a mim mesmo vendo os autos que passam, à gente que passa, e eu me observo desde fora. Façam de outro modo, tentem com a memória. Vocês agora se lembram em uma situação quando eram crianças. Bem. Que é o que vêem nessa cena?. Vêem vocês desde dentro, como vêem agora as coisas que os rodeiam, vêem desde dentro (sendo crianças) as coisas que os rodeiam?. Vêem-se desde fora. Nesse sentido, onde está o eu?. O eu está dentro do sistema de estruturação que faz a consciência e percebe as coisas, ou o eu está fora?. A impressão que se tem é que em alguns casos está dentro e em outros casos está fora, por uma parte. Por outra parte, se vê que ao observar as mesmas operações da consciência o observador é separado destas operações. Em todos os casos, o eu aparece como separado, esteja dentro ou esteja fora. O que sim sabemos é que não está incluído nas operações.
Este eu então, como é que o identifico com a consciência, se todos os registros que tenho são de separação, entre eu e consciência? Se observar todos os registros que tenho do eu, vou ver que todos estes registros são de separação entre isto que chamo "consciência e operações da consciência" e isto que chamo de “eu”.
Como se constitui este eu, por que surge este eu e por que cometo o erro de associar o eu à consciência?
O eu se baseia na memória e no reconhecimento de certos impulsos internos. Tenho noção do mim mesmo porque reconheço alguns dos meus impulsos internos que estão sempre ligados a um tom afetivo característico. Não só me reconheço como eu mesmo por minha biografia e meus dados de memória; reconheço-me por minha particular forma de sentir, por minha particular forma de compreender. E se tirássemos os sentidos onde estaria o eu? O eu não é uma unidade indivisível, mas resulta da soma e estruturação dos dados dos sentidos e dos dados de memória.
O eu, então, pode funcionar mesmo que tiremos os dados da memória e os dados dos sentidos?
Vejamos o ponto com cuidado. O conjunto de atos pelos quais a consciência pensa a si mesma depende de registros sensoriais internos, os sentidos internos dão informação do que sucede na atividade da consciência. Esse registro da própria identidade da consciência está dado pelos dados de sentidos e os dados de memória, mais uma peculiar configuração que outorgam à consciência a ilusão de identidade e permanência não obstante as contínuas mudanças que nela se verificam. Essa configuração ilusória de identidade e permanência é o eu.
(Ampliações e desenvolvimentos maiores sobre a consciência e o eu podem encontrar-se no livro Apontamentos de Psicologia -Psicologia III e Psicologia IV-).
Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume II, Apontamentos de Psicologia: “(Psicologia I e Psicologia II, Psicologia III)”.
Silo, Apontamentos de Psicologia, Psicologia IV.
Notas Internacionais
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